Saturday, June 29, 2013

Memento mori

Morte. Essa palavra enche o meu imaginário com esqueletos, carecas encapuzados que jogam xadrez e foices. Mas o que, de fato, ela significa eu não consigo saber. Pelo menos não como essa personificação malévola da corrupção do corpo, da alma, da identidade, de tudo. A única morte que eu posso conhecer é a do outro. A minha é um mito, uma piada de mau gosto. Sei que há de chegar um momento em que Mãe Terra vai demandar de volta a carne que me emprestou como abrigo. E então, como um capitão assiste o naufrágio do navio que lhe é a própria vida, lhe entregarei o corpo agradecido e saltarei, triunfante e intacto, ao gigante mar de almas incorpóreas cujos pensamentos e ações sustentam nosso mundo. Entendo que não sou o meu corpo, embora seja 'no' meu corpo. A verdade é que sou bem mais jovem que ele. 

Será que eu posso dizer, então, que 'a morte está morta e nós a matamos'? Será que o homem pode olhar para o cadáver de sua infantil projeção do instinto de sobrevivência? Qual é a nossa real perda com a ausência da famigerada 'consciência da morte' (além de uma vasta e fastidiosa literatura)

Nem Platão, nem Schopenhauer. Se eu puder atribuir algum significado para esse louco acaso do cosmo que sou eu, vou estar sempre vivo em alguma recordação, história, ação, teoria  e prática, dialética e lógica, que remontem ao meu temporário martírio terrestre. Só preciso transcender a jaula do corpo. Só preciso do tempo, para depois vencê-lo. Devenir immortel et puis, mourir! (seja lá o que 'morrer' signifique)